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Informante 12

Idade:26
Sexo/Género:Feminino
Escolaridade:Doutoramento em curso
Nacionalidade:brasileira (Piracicaba – São Paulo)
Data / Local:26/11/2010, Lisboa, Portugal
Entrevistador:Neuza Campaniço
Especificações:Marantz PMD 670, PCM, mono, int. mic., 44.1 kHz

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Memória da outra banda

Ora pois. Por obediência a uma ordenação cronológica, havemos de começar esta visita pela Quinta do Rouxinol, ali para os lados de Corroios. Cabe-nos então travar relações com o mundo luso-romano, uma vez que aqui se situa um antigo pólo industrial de fabrico cerâmico, onde as investigações arqueológicas levadas a cabo permitiram localizar três fornos e uma lixeira com materiais rejeitados.

Loiça doméstica comum e ânforas destinadas ao uso e transporte de produtos locais, resultantes da conserva e transformação de marisco e peixe, serviriam não só as populações das redondezas como também núcleos mais longínquos. Isto particularmente no que concerne aos consumidores que se abasteciam nas fábricas de salga situadas em Cacilhas e na zona ribeirinha lisboeta, sítios onde foram encontradas cetárias – os tanques romanos destinados à preparação do pescado.

Muito perto desta estação arqueológica situa-se uma das pérolas do património seixalense, o moinho de maré de Corroios, desactivada unidade industrial que viria a ser adquirida e recuperada pela autarquia local. Seria esta uma das «perto de sessenta moendas que moem de maré» existentes no séc. XVI entre Almada e o Montijo – a então Aldeia Galega.

Unidade fabril de origem medieval, a sua recuperação consistiu não só no restauro do edifício mas também na reactivação do seu sistema de moagem, em que intervém a caldeira que aprisiona as águas de maré enchente para depois as largar na vazante, fazendo mover os rodízios que accionam as mós. Embora a construção actual date de 1752, o moinho pertenceu, ainda por legado de Nuno Álvares Pereira, ao convento lisboeta do Carmo, vindo a passar para as mãos de particulares apenas com a nacionalização dos bens religiosos, em 1934.

Mais longe, já na Torre da Marinha, junto ao bico em que desagua no saco do Seixal o rio Judeu, situa-se a sede do Ecomuseu Municipal do Seixal. Se o edifício em que se encontra sediado o museu é discreto, apagado, a própria zona de localização – a periferia de um qualquer bairro suburbano – contribui ainda mais para lhe retirar qualquer pretensão de fidalguia.

No entanto, é aqui que a vida do Ecomuseu fundamentalmente se determina e processa. Nas instalações, que aproveitam o espaço de um anexo de um edifício escolar, expõem-se em permanência materiais resultantes da relação que, através do tempo, se estabeleceu entre o Homem e este território e das actividades que tal relação engendrou com a terra e o estuário. E é aqui que funciona, também, uma série de serviços de apoio ao papel didáctico do museu: o serviço educativo e o serviço de documentação, entre outros.

Já a Arrentela, onde existiu uma importante fábrica de lanifícios criada em meados do século passado, se dedica a mostrar aos visitantes o que foi noutro tempo a construção naval estuarina: os diferentes modelos de barcos que navegavam no golfão de Lisboa, alguns dos quais, como a complexa e espigadíssima muleta, se aventuravam também nos mares piscosos, mais bravos e perigosos que se sucediam entre o cabo da Roca e o cabo Espichel.

Pacíficos e ronceiros, fundeados no cais do Seixal, os dois botes fragateiros e o varino Amoroso, recuperados para o Ecomuseu, limitam-se hoje a transportar pacatos navegantes, curiosos deste mundo em que as marés faziam mover moinhos e o vento impelia a frota que navegava neste mar da Palha; No tempo em que este mar lambia ainda, guloso, os muros da Quinta da Trindade, antiga casa de lazer dos frades trinitários lisboetas. Este amplo espaço, esperançado numa custosa recuperação, faria desta Quinta, estendida sobre o Tejo e com vista para a casaria de Lisboa, o núcleo central do Ecomuseu do Seixal.